Senador estaria como no meio de um hospício, com cada um dos membros do clã agindo de forma autônoma e o prejudicando na candidatura
A vida de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) não está nada fácil. Se manter-se equilibrado no fio da navalha da política brasileira já seria um desafio hercúleo para qualquer mortal, o “01” decidiu elevar o grau de dificuldade para o nível estratosférico: ele tenta agora ser o domador de um circo de horrores onde os leões, os palhaços e os trapezistas são seus próprios parentes. E, convenhamos, a plateia já percebeu que o espetáculo não é de gala, mas sim um surto coletivo em horário nobre.
Nos últimos dias, o senador mergulhou de cabeça numa operação de “contenção de danos” digna de quem tenta apagar um incêndio florestal com um conta-gotas. O foco principal dessa força-tarefa é Eduardo Bolsonaro. O “03”, diretamente do seu “exílio dourado” no exterior, resolveu que é uma unidade autônoma de guerrilha digital, operando em frequência própria. Eduardo tem atuado sem filtro, sem freios e, principalmente, sem nenhum resquício de juízo, disparando para todos os lados e contaminando a pré-campanha do irmão com uma toxicidade que já começa a afastar até os aliados mais resilientes. Flávio sabe que a metralhadora giratória de Eduardo, carregada de uma indignação infantil e total falta de estratégia, é o combustível que a oposição adora para fazer fogueira.
Mas quem dera o problema fosse apenas o “Bananinha” e seu deslumbramento com a extrema direita internacional. Flávio vive hoje o que interlocutores chamam de uma autêntica “temporada no hospício”. De um lado, temos a madrasta, Michelle Bolsonaro, que não faz a menor questão de esconder que suas preferências políticas e pessoais não passam, nem de longe, pelo gabinete do enteado. Michelle está em pé de guerra e o preço da sua paz é caríssimo: ela exige, como prova de rendição, um pedido de desculpas público e humilhante por parte de Eduardo.
A ex-primeira-dama sentiu o golpe após ser exposta pelo enteado no episódio do CPAC e nas cobranças públicas por engajamento. Para Michelle, Eduardo foi o responsável direto por deixá-la na linha de tiro ao sugerir que vídeos do “patriarca”, que cumpre prisão domiciliar e, teoricamente, só tem acesso a celular através das mãos dela, foram produzidos sob sua guarda e conivência. É a pura baixaria doméstica, digna de programas de auditório vespertinos, transformada em crise de Estado. Enquanto o pedido de perdão não vem, Michelle faz o que sabe fazer de melhor: o silêncio obstrutivo. Ela se rebela contra a indicação de Flávio à Presidência e quer mais é que o circo pegue fogo, de preferência com todos os enteados dentro.
No meio desse tiroteio de egos, Flávio ainda precisa atuar como monitor de creche para Carlos Bolsonaro e Jair Renan. Carlos, como o Brasil inteiro já cansou de saber, é a personificação da imprevisibilidade patológica. “Fora da casinha” por natureza e mestre em decifrar conspirações de sombras na parede ou de curtidas no Instagram, o “02” é uma bomba-relógio de pavio curto. Ele pode explodir toda a estratégia de “bom moço” de Flávio a qualquer momento com um simples tuíte verborrágico disparado nas madrugadas de insônia.
O senador tentou adotar um tom diplomático, ou o que resta dele, em entrevista recente ao podcast Inteligência LTDA, dizendo que “segura a onda” de Eduardo e que a postura do irmão “não é inteligente”. Traduzindo do bodesco para o português claro e direto: Flávio está desesperado e não sabe mais o que fazer para calar a própria família. A Fórum apurou que o buraco é muito mais embaixo e o desgaste é estrutural. A tentativa de reaproximação envolve até o “estrangeiro” Valdemar Costa Neto, que vai tentar a sorte de convencer Eduardo, em solo norte-americano, a baixar a guarda. Mas convenhamos, Valdemar pode até mandar no caixa do PL, mas no “hospício” do clã Bolsonaro, ele é apenas mais um visitante sem crachá e sem autoridade.
A estratégia de Flávio esbarra na realidade nua e crua que move a extrema direita: o individualismo selvagem e o “cada um por si”. Como diz o velho ditado caiçara que tanto se aplica a essa gente, “farinha pouca, meu pirão primeiro”. No clã Bolsonaro, a lealdade é um conceito elástico que termina exatamente onde começa o interesse financeiro ou o ego de cada um. Recentemente, Flávio teve que apagar as labaredas entre Eduardo e o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), em mais um episódio de “fogo amigo” que beirou o ridículo.
Flávio Bolsonaro sonha com a cadeira presidencial, mas, por enquanto, seu maior cargo é o de síndico de um condomínio de luxo em chamas, onde os moradores preferem jogar gasolina uns nos outros a salvar o prédio. O diagnóstico é claro: ninguém quer se aliar a um bando de doidos varridos que disparam contra tudo e todos o tempo todo. Flávio quer ser o herdeiro político, mas corre o risco de herdar apenas as cinzas de uma família que se devora viva diante dos olhos do país.
