Após reuniões da embaixadora da Austrália com o governo federal e a concessão da licença ambiental prévia, projetos de terras raras no Brasil destravam financiamentos milionários
Amostras de terras raras: Óxido de cério, Bastnasita, óxido de neodímio e carbonato de lantânio • .REUTERS/David Becker
O governo da Austrália, por meio do Export Finance Australia,
agência de crédito à exportação do governo australiano, enviou, nos últimos
dias, cartas de apoio para financiamento a dois projetos de terras raras no
Brasil.
Nesta quarta-feira (7), a mineradora australiana Meteoric
Resources, dona do Projeto Caldeira, anunciou que o empreendimento recebeu uma
carta de apoio para financiamento do Export Finance Australia.
As ações da empresa na bolsa da Austrália subiram mais de 8%
após o anúncio.
O Projeto Caldeira, localizado em Poços de Caldas (MG), é
considerado um dos maiores e mais avançados projetos de terras raras em
desenvolvimento no mundo, baseado em argilas de adsorção iônica, modelo
semelhante ao explorado atualmente pela China.
Esses depósitos, chamados de IACD (Ion Adsorption Clay
Deposits), são raros e de grande valor estratégico.
Diferentemente dos grandes maciços rochosos, eles permitem a
extração de minerais de forma menos agressiva e com menor impacto ambiental.
Segundo a empresa, o financiamento proposto tem como objetivo
apoiar o desenvolvimento do Projeto Caldeira por meio da contratação de
empresas australianas de engenharia, suprimentos, construção e gestão.
O empreendimento já conta com apoio financeiro do
Export-Import Bank of the United States, a agência oficial de crédito à
exportação do governo dos Estados Unidos.
“Vemos a Carta de Apoio da Export Finance Australia como um
forte voto de confiança na estratégia e na capacidade da Meteoric de se tornar
o próximo grande fornecedor de materiais críticos de terras raras”, disse o
diretor-presidente da empresa, Stuart Gale.
Em dezembro, o projeto recebeu a licença ambiental prévia,
iniciou as operações da planta-piloto e realizou a primeira produção de
carbonato misto de terras raras.
Segundo fontes próximas à mineradora ouvidas pela reportagem,
o governo federal tem dado apoio nessas interlocuções e se mostrado como um
“ambiente aberto” para investimentos.
Em dezembro, a secretária nacional de Geologia, Mineração e
Transformação Mineral, Ana Paula Bittencourt, se reuniu com a embaixadora da
Austrália no Brasil, Sophie Davies, para tratar da política de minerais
críticos no Brasil.
Projeto Colossus
Já na última terça-feira (6), mineradora australiana Viridis
Mining & Minerals anunciou que o Projeto Colossus, localizado em Minas
Gerais e rico em terras raras, recebeu uma carta de apoio para financiamento da
Export Finance Australia
Segundo fato relevante publicado pela empresa, o
financiamento pode chegar a até US$ 50 milhões e será utilizado para o
desenvolvimento do projeto.
Com a emissão da carta, o empreendimento entra agora em uma
etapa de due diligence, que envolve análises técnicas, financeiras, ambientais
e de crédito conduzidas pela agência australiana antes de uma eventual
aprovação formal do financiamento.
As ações da empresa subiram mais de 12% na bolsa da Austrália
após o anúncio.
O Projeto Colossus abriga reservas de argilas iônicas ricas
em neodímio, praseodímio, térbio e disprósio, elementos essenciais para a
fabricação de ímãs permanentes usados em veículos elétricos, turbinas eólicas,
sistemas de defesa e equipamentos de alta tecnologia.
O Colossus já havia sido considerado elegível para
financiamento por outras duas agências internacionais de crédito à exportação:
a Bpifrance Assurance Export, ligada ao governo da França, e a Export
Development Canada, do governo canadense.
Na prática, essa elegibilidade indica que o projeto atende
aos critérios técnicos, ambientais, econômicos e estratégicos exigidos por
esses países para receber garantias ou crédito público, o que aumenta a
confiança de bancos e investidores privados na viabilidade do empreendimento.
Austrália, Canadá e França classificam o projeto em Minas
Gerais como estratégico, em meio ao esforço dos países ocidentais para
diversificar fornecedores de terras raras e reduzir a dependência de insumos da
China, que hoje domina grande parte da cadeia global desses minerais.
No caso do governo francês, por exemplo, o Colossus foi
incluído no programa “Garantie de Prêt Stratégique” (Garantia de Empréstimo
Estratégico), que oferece garantia soberana parcial para financiamentos
bancários de iniciativas consideradas de interesse nacional e geopolítico para
a França e seus parceiros.
Em dezembro, o projeto recebeu a licença ambiental prévia,
etapa considerada decisiva no licenciamento. A expectativa da Viridis é
alcançar a decisão final de investimento no segundo semestre de 2026.
A estratégia da empresa é se consolidar como fornecedora
desses insumos para países ocidentais, especialmente os Estados Unidos, em um
contexto de reorganização das cadeias globais de suprimento e de fortalecimento
da segurança mineral.
