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 Eleições em Brasil e Colômbia podem redefinir correlação de forças na América Latina sob ataque

Lula e Petro em encontro regional: presidentes do Brasil e da Colômbia lideram os principais governos progressistas da América do Sul em um ano marcado por ofensivas da direita no continente

 Crédito: RAUL ARBOLEDA / AFP

O ano de 2026 será marcado por uma sequência de eleições presidenciais e legislativas que têm potencial para reconfigurar o cenário político da América Latina. Serão cinco pleitos relevantes – Colômbia, Brasil, Haiti, Peru e Costa Rica – em um momento de ofensiva aberta do imperialismo estadunidense, fortalecimento de candidaturas de extrema direita no continente e sinal de alerta para as esquerdas governistas, que em muitos casos, vêm adotando posturas cada vez mais conciliatórias diante de uma direita mais agressiva e articulada.

“Estamos diante de direitas mais raivosas e esquerdas mais moderadas”, pontua o historiador e analista político Miguel Stédile. A análise, que dá título a esta reportagem, está ancorada em uma leitura mais ampla do momento político latino-americano, que combina desgaste dos ciclos progressistas moderados, reorganização do conservadorismo em moldes autoritários, e aprofundamento da influência externa nas definições estratégicas de cada país. “O que está em jogo não são apenas governos, mas o rumo geopolítico do continente. A disputa é por soberania e por projeto”, completa Stédile.

Esse cenário adverso para a disputa aberta se agravou logo na primeira semana do ano, com o ataque dos Estados Unidos à Venezuela. No dia 3 de janeiro, o presidente Nicolás Maduro e a deputada Cilia Flores, primeira-dama do país, foram sequestrados durante bombardeios realizados em Caracas e em outros pontos do país.

O episódio foi lido por analistas, movimentos populares e lideranças de esquerda como um gesto desesperado diante do enfraquecimento da hegemonia estadunidense na região – mas, ao mesmo tempo, como um sinal de que Washington está disposto a retomar os métodos clássicos de intervenção para preservar seus interesses geopolíticos e energéticos.

“Acabaram as guerras híbridas”, afirma Miguel Stédile. “Agora voltaram as guerras de verdade: com tanques, mísseis, sequestros, ocupações. E isso tem impacto direto na política da região.”

Laura Capote, integrante da Secretaria Continental da Alba Movimentos, destaca que esse novo ciclo se dá menos por força e mais por fraqueza do imperialismo. “Estamos em um momento de ofensiva muito forte do imperialismo, não como uma demonstração de força, mas de fraqueza. Diante do seu declínio, os EUA voltam aos velhos métodos de intervenção militar, sequestros e bombardeios. E isso coloca um desafio enorme para os processos eleitorais do continente”, afirma.

Segundo ela, os acontecimentos recentes demonstram que os Estados Unidos e seu bloco de aliados, incluindo figuras como Donald Trump, voltaram a operar abertamente como atores centrais que vão tentar incidir diretamente nas eleições na região.

“Trump já mostrou que é capaz de definir eleições apenas declarando apoio. Foi assim em Honduras, onde ele interferiu diretamente na libertação de Juan Orlando Hernández, e foi assim na Argentina com o recado direto sobre Javier Milei. É uma retomada da Doutrina Monroe com o carimbo de Trump”, afirma Capote.

É nesse contexto que Colômbia e Brasil se tornam, nas palavras das fontes ouvidas pelo Brasil de Fato, as eleições mais importantes dos últimos anos na América Latina. Ambas concentram grandes disputas internas, forte mobilização dos movimentos populares e enorme impacto geopolítico no tabuleiro regional.

Se triunfarem candidaturas de continuidade ligadas aos atuais governos progressistas, haverá fôlego para um novo ciclo político. Se prevalecer a extrema direita, os custos serão profundos – tanto no interior dos países quanto nas relações continentais.

“Essas eleições definem se vamos dar um passo atrás ou se seremos capazes de aprofundar os processos de transformação”, avalia Stédile. “E isso exige da esquerda coragem para disputar o imaginário popular com um programa mais radical, mais enraizado no povo, e menos subordinado à lógica da institucionalidade neoliberal.”

Para Laura Capote, o dilema entre moderação e radicalidade não é apenas tático, mas existencial para os projetos populares. “É a demonstração do fracasso dos progressismos de centro. O exemplo mais claro é o Chile: elegem um governo que deveria ser de esquerda, mas que aplica um programa de centro-direita. Resultado? Cresce o apoio a candidaturas abertamente fascistas. Se o projeto não resolve a vida do povo e não garante soberania, ele não se sustenta”, afirma.

A constatação das fontes é que, diante de uma direita articulada com setores do empresariado, da mídia e do capital internacional, não há mais espaço para ambiguidade. O centro político encolheu. “A esquerda precisa parar de disputar conciliação e voltar a disputar poder”, resume Stédile.

Colômbia: “A eleição mais importante do continente”

1º turno: 24 de maio de 2026
2º turno (se houver): 14 de junho de 2026

Em maio de 2026, a Colômbia viverá um momento inédito: será a primeira eleição presidencial após a chegada da esquerda ao poder em 2022, quando Gustavo Petro foi eleito com apoio dos movimentos populares e da coalizão Pacto Histórico. Como não há reeleição no país, Petro tenta viabilizar a continuidade de seu projeto político com a candidatura do senador Iván Cepeda, nome ligado à luta por direitos humanos e à esquerda do país.

A transição acontece em um cenário de ofensiva da direita local e internacional, com Petro sob ataques de setores empresariais, da mídia tradicional e diretamente de Donald Trump. A disputa presidencial deste ano, portanto, é decisiva para a manutenção de um projeto político que rompeu com a hegemonia liberal-conservadora na Colômbia e abriu caminhos para reformas estruturais.

Laura Capote, dirigente da Alba Movimentos e pesquisadora do Instituto Continental na Colômbia, destaca a importância do pleito. “Nos encontramos no início de um ano em que queremos dar força e continuidade ao projeto da Colômbia Humana. Petro não pode se reeleger, então o desafio é garantir que o próximo governo dê seguimento a essa proposta de transformação radical”, afirma.

A candidatura de Cepeda, já oficializada pelo Pacto Histórico, representa a tentativa de preservar um ciclo de mudanças iniciado com forte apoio popular e sustentado por mobilizações sociais. Entre os avanços do atual governo estão reformas trabalhistas, da aposentadoria e agrária, além da criação de mecanismos legais para a democratização da terra e do reconhecimento dos direitos camponeses. Mas o caminho foi marcado por contradições e limites impostos pela correlação de forças no Congresso.

Miguel Stédile avalia que, em 2026, a Colômbia será o centro da disputa continental. “A eleição mais importante do continente é a da Colômbia”, afirma. Para ele, a dificuldade de consolidar transformações profundas num governo que não teve maioria parlamentar mostra o que está em jogo agora: garantir a continuidade com mais força e base social.

A eleição de 2026 também testará a coesão do Pacto Histórico, frente ampla que reúne setores da esquerda, movimentos populares e figuras do campo progressista. Com a polarização em alta e tentativas da direita de deslegitimar o processo eleitoral, o pleito coloca em disputa não só o projeto do atual governo, mas o rumo da experiência democrática e popular mais significativa da Colômbia nas últimas décadas.

Entre os nomes cotados pela oposição estão figuras como o ex-prefeito de Medellín Fico Gutiérrez, a senadora uribista María Fernanda Cabal e o ex-prefeito de Barranquilla Álex Char, além de Enrique Peñalosa, que busca se apresentar como alternativa moderada.

Eleições legislativas

No dia 8 de março de 2026, a esquerda colombiana chega às eleições legislativas com o desafio de ampliar sua presença no Congresso e evitar o isolamento político que marcou os últimos anos. Sem maioria parlamentar, o governo Petro enfrentou sucessivos bloqueios e precisou ceder em pontos-chave de suas propostas para garantir a aprovação de reformas trabalhistas e da aposentadoria.

“Se a esquerda quiser ter chances reais de consolidar projetos de transformação, vai ter que disputar não só os Executivos, mas também os parlamentos. Foi isso que limitou o governo Petro até agora na Colômbia”, avalia Miguel Stédile.

Ainda assim, os movimentos populares reconhecem que houve avanços estruturais, especialmente no campo da reforma agrária. A composição do novo Congresso será decisiva para medir a força do Pacto Histórico e determinar se um eventual novo governo de esquerda poderá governar com menos entraves legislativos.

O peso do Brasil na disputa continental

1º turno: 4 de outubro de 2026
2º turno (se houver): 25 de outubro de 2026

A eleição presidencial brasileira de 2026 é, ao lado da colombiana, uma das mais estratégicas do continente. Do ponto de vista da ingerência dos EUA no continente, a experiência recente do Brasil com as sanções e tarifaço pode ser usada como vitrine de uma soberania possível sem confronto direto.

Para Miguel Stédile, o governo Lula vem sendo utilizado como “exemplo de caso bem-sucedido” dessa postura: “Forçou negociação e todas as partes ganharam. O Brasil não abriu mão da sua soberania”, resume.

Apesar da radicalização retórica da direita nas redes sociais e do discurso geopolítico pró-Washington, Miguel avalia que a retórica anti-Venezuela, recorrente em pleitos anteriores, pode ter menor impacto desta vez. “O governo tem a seu favor o fato de que não reconheceu o governo Maduro”, diz. Mesmo sob pressão do cenário continental, o analista considera que o campo progressista tende a repetir uma estratégia de moderação programática, especialmente em temas internacionais.

A aposta, afirma Stédile, será em agendas internas com maior ressonância popular. “O caminho da eleição presidencial do Lula vai ser manter o discurso da soberania como bem-sucedido e apostar em temas como taxação de super-ricos e tarifa zero”, afirma.

Enquanto Lula já atua como pré-candidato à reeleição, a oposição bolsonarista, ainda em fase de reorganização após a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, segue indefinida. Até o momento, Flávio Bolsonaro é o nome mais associado à preferência do pai, mas também são cogitados nomes como Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador de São Paulo; Romeu Zema (Novo), de Minas Gerais; Ratinho Júnior (PSD), do Paraná; e Ronaldo Caiado (UB), de Goiás.

A possível reedição de uma polarização aberta entre lulismo e bolsonarismo, no entanto, pode beneficiar o campo progressista, segundo o analista. “Os movimentos historicamente bem-sucedidos em período eleitoral são aqueles que polarizam pela esquerda e não aqueles que buscam o centro”, conclui.

Haiti: entre a eleição marcada e a crise que pode impedir o voto

1º turno (presidencial e legislativas): 30 de agosto de 2026
2º turno + eleições locais: 6 de dezembro de 2026

Histórica primeira colônia a tornar-se independente na América Latina, o Haiti tem um calendário eleitoral oficial para 2026. Mas há incerteza concreta se o pleito ocorrerá. O país atravessa uma de suas piores crises de segurança, institucionais e sociais do século — sem parlamento, sem tribunais superiores em funcionamento e com a presidência vaga desde o assassinato de Jovenel Moïse, em 2021.

O atual governo de transição, liderado pelo Conselho Presidencial de Transição (CPT), enfrenta forte questionamento interno e externo. Além disso, seu mandato termina, teoricamente, em 7 de fevereiro, antes mesmo do primeiro turno.

Na prática, cinco nós estruturais comprometem a realização do processo eleitoral: o domínio de grupos armados sobre áreas inteiras do território, sobretudo em Porto Príncipe; a crise de legitimidade da própria transição em curso; a desconfiança social no sistema eleitoral; a capacidade operacional limitada do Conselho Eleitoral Provisório (CEP); e a disputa aberta sobre a validade e autoria das regras publicadas no decreto eleitoral.

Para movimentos populares haitianos, como os signatários do Acordo de Montana, esse governo de transição é ilegítimo. A proposta do campo popular é clara: organizar um novo governo transitório, soberano e desvinculado da tutela internacional, com cooperação com o Sul Global, mas não com novas forças de ocupação.

“É muito improvável imaginar que um processo eleitoral leve à estabilização real do país”, afirma o historiador e analista político Miguel Stédile. “O que a gente tem no Haiti é um calendário de papel. E não está sequer garantido que a eleição venha de fato a ocorrer”, completa Miguel, que avalia os interesses dos EUA neste pleito.

“O que os Estados Unidos querem agora é apenas manter a estabilidade dos seus interesses”, afirma. “Do ponto de vista econômico, eles já extraíram tudo o que queriam do Haiti. Tudo o que tinha para ser privatizado já foi. Tudo o que tinha para ser desmontado, já está desmontado.”

Peru: da ruptura frustrada à crise institucional prolongada

Eleição geral (presidência, vice e novo Congresso): 12 de abril de 2026
Previsão de posse do novo governo: 28 de julho de 2026

O Peru chega a 2026 com eleições gerais convocadas por decreto oficial, mas ainda imerso na ressaca de um ciclo turbulento de crises institucionais, repressão social e fratura territorial. Desde a vitória de Pedro Castillo em 2021, um professor rural eleito com base popular andina e discurso de ruptura, o país vive um esgarçamento de seu sistema político.

Castillo, impulsionado por sindicatos, comunidades do interior e movimentos sociais, foi alçado ao poder com a promessa de uma agenda popular e uma nova Constituição. Mas o cerco institucional – com um Congresso conservador, trocas de gabinete e tentativas de golpe – desmontou rapidamente a base do projeto.

A ruptura com o partido Perú Libre e a perda de apoio de setores progressistas aceleraram o colapso. A tentativa de Castillo de dissolver o Congresso em dezembro de 2022 resultou em sua prisão.

A vice Dina Boluarte assumiu a presidência, mas tampouco estabilizou o país. Seu governo enfrentou forte rejeição popular, escândalos, repressão e trocas constantes de ministros, até ser destituída pelo Congresso em outubro de 2025 por “incapacidade moral”.

Durante os meses que se seguiram à queda de Castillo, o país viveu uma onda de mobilizações populares com demandas por novas eleições, renúncia da presidente e a convocação de uma Assembleia Constituinte. A repressão aos protestos resultou em dezenas de mortes.

Para Miguel Stédile, o colapso no Peru revela mais que uma disputa palaciana: “Toda a estrutura construída ao longo do século – poder das oligarquias, presença militar e econômica dos Estados Unidos, bloqueios legislativos – atuou para inviabilizar qualquer projeto de esquerda real. A vitória de Castillo desorganizou momentaneamente a direita, mas o sistema se reorganizou rapidamente para retomar o controle.”

A cientista política Laura Carvalho, por sua vez, avalia que o Peru expõe uma fratura democrática grave, onde “as regras do jogo já não garantem alternância nem representação real”. Segundo ela, o desgaste das instituições se combina a um “modelo econômico excludente e concentrador”, que alimenta a descrença e a fragmentação social.

O governo interino atual é comandado por José Jerí, presidente do Congresso que assumiu após a queda de Boluarte. Ele confirmou que deixa o cargo em julho de 2026. A convocatória publicada pelos órgãos eleitorais estipula o pleito para 12 de abril, com retorno à bicameralidade no Congresso.

O cenário eleitoral, no entanto, ainda é fragmentado. Até agora, nenhuma candidatura nacional desponta com força – reflexo direto da crise de representatividade. Velhos nomes da direita neoliberal, como Keiko Fujimori, ensaiam retornos, enquanto movimentos regionais e indígenas do sul cogitam postular novas alternativas. Para Miguel Stédile, o país vive “uma espécie de entropia”. “O que existia já está podre, mas ainda não nasceu nada de novo que possa reconfigurar a política no Peru.”

Costa Rica: eleição sem surpresas em país chave para os EUA

Eleição geral (presidência, dois vices e deputados): 2 de fevereiro de 2026

Com eleição presidencial marcada para 2 de fevereiro, a Costa Rica aparece como um dos poucos casos em que não se espera instabilidade ou disputa acirrada. O presidente Rodrigo Chaves, um ex-economista do Banco Mundial eleito em 2022 — ainda não oficializou sua candidatura à reeleição, mas mantém protagonismo político e alto nível de exposição, apesar de ter sofrido processos por corrupção. A oposição, por sua vez, segue fragmentada e sem nomes competitivos.

O país, considerado um aliado histórico dos Estados Unidos, ocupa uma posição estratégica na América Central. Sem forças armadas desde 1949 e com políticas voltadas à “estabilidade institucional”, a Costa Rica cumpre um papel importante na contenção de fluxos migratórios e no equilíbrio político da região sob a ótica de Washington. Segundo Miguel Stédile, “existe uma grande chance de ser uma eleição de cartas marcadas”.

Embora o pleito não deva provocar mudanças de rota, o peso do país no xadrez regional continua relevante. “A Costa Rica é, ao lado do Panamá, uma das peças que os EUA mantêm sob controle rígido. Isso explica a baixa tensão em torno da disputa”, avalia Stédile. A expectativa, segundo ele, é de manutenção do status quo.

Relembre principais eleições de 2025 na América Latina

  • Equador – Daniel Noboa, de direita, foi reeleito com um discurso de combate ao crime organizado e fortalecimento da segurança.
  • Bolívia – Rodrigo Paz , de centro-direita, com sinalizações pró-mercado, venceu o segundo turno, encerrando o ciclo do MAS no poder.
  • Honduras – Nasry “Tito” Asfura, de direita, voltou ao poder.

Veja eleições previstas para 2027

  • Argentina – Eleições gerais (presidencial + Congresso).
    Previsão: 24 de outubro (1º turno) e novembro de 2027 (2º turno, se necessário).
  • Guatemala – Eleições gerais (presidência, Congresso e municípios).
    Previsão: junho (1º turno) e agosto de 2027 (2º turno).
  • El Salvador – Presidencial, legislativa e municipal no mesmo dia.
    Data oficial: 28 de fevereiro de 2027 (com novo calendário aprovado em 2025).
  • México – Eleições intermediárias (Câmara de Deputados + estaduais).
    Previsão: a confirmar. Há debate sobre realizar uma “supereleição” com consulta revogatória.


Brasil de Fato





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