A direita busca caminhos para as disputas eleitorais de 2026 com um eleitorado conservador ainda apegado ao Clã Bolsonaro
As pesquisas da Genial/Quaest e do Meio/Ideia são cristalinas. Existe um dado duro, quase imutável no curto prazo. Um nome Bolsonaro em disputa começa com cerca de 20% das intenções de voto. Não é apenas um número. É um reflexo condicionado, uma lembrança automática, um gesto político que já nasce pronto na cabeça de milhões. Flávio Bolsonaro não precisa se apresentar. Ele é reconhecido antes mesmo de falar.
Esse fenômeno não se explica apenas por estratégia eleitoral. Trata-se de memória social sedimentada. Trata-se de um nome que virou símbolo, senha, identidade. E é justamente esse atalho que falta aos governadores. Eles governam estados relevantes, entregam resultados administrativos, transitam com desenvoltura institucional. Mas não possuem uma palavra que dispare, de imediato, adesão emocional. A política deles precisa ser explicada. A política associada ao sobrenome Bolsonaro é sentida antes de ser compreendida.
Não há fragilidade pessoal nesses líderes. Há um descompasso entre o tipo de liderança que representam e o tipo de sociedade que hoje responde mais rapidamente ao conflito do que à gestão. Eles oferecem estabilidade. O eleitor, muitas vezes, responde ao choque, ao pertencimento, à identificação imediata.
O jornalista Pedro Doria nomeia esse fenômeno com precisão incômoda. Existe uma base bolsonarista que vai de cerca de 12% a 13%, segundo as pesquisas, mas que salta para algo próximo de 20% quando ativada pela lembrança imediata do nome. Esse salto não é técnico. É simbólico. É memória política condensada.
E essa memória não é neutra. Ela é movida por distorções, esquecimentos e reconstruções. Há um dado que se impõe com força. Segundo o levantamento do Meio/Ideia, mais de metade dos brasileiros não acredita que houve tentativa de golpe em 2022. O fato histórico se dilui na percepção social. O que foi ruptura institucional se transforma, para muitos, em narrativa contestada.
Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Ratinho Júnior percebem esse ambiente. Ajustam o tom. Evitam enfrentamentos diretos. Flertam com a ambiguidade. Não porque desconheçam os acontecimentos, mas porque sabem que há um custo eleitoral elevado em afirmar com clareza aquilo que parte expressiva da sociedade não reconhece ou não deseja reconhecer.
Eduardo Leite assume outra posição. Nomeia, acusa, delimita o campo. E, ao fazê-lo, se isola parcialmente dentro de um espaço político que ainda hesita em romper com sua própria base social.
Esse é o dilema central. A verdade política não coincide necessariamente com a viabilidade eleitoral. E a adaptação eleitoral pode corroer a identidade política.
Há ainda um cálculo evidente. Do eleitorado de Luiz Inácio Lula da Silva dificilmente sairão votos relevantes para esses candidatos. E, mais do que isso, todos desejam, de forma clara, que Lula seja o antagonista da disputa. Lula organiza o campo político. Lula simplifica a narrativa eleitoral. Lula permite que a eleição seja lida como continuidade ou rejeição. Sem Lula, o campo da direita se fragmenta ainda mais, e o bolsonarismo ocupa o centro do palco sem mediação.
Mas esse desejo contém uma armadilha. Para chegar até Lula, é necessário atravessar o território controlado por Flávio Bolsonaro. E é nesse ponto que as candidaturas se perdem. Não conseguem enfrentar o bolsonarismo com clareza, nem conseguem superá-lo simbolicamente. Permanecem em uma zona intermediária, tentando disputar um eleitorado que já possui identidade consolidada.
Outro elemento se impõe. A direita que esses governadores tentam construir ainda não encontrou linguagem. Fala de gestão, mas não mobiliza. Fala de responsabilidade, mas não cria pertencimento. Fala de equilíbrio, mas não emociona. Enquanto isso, o bolsonarismo opera com categorias mais simples e mais potentes. Valores, medo, identidade, inimigos. Esse vocabulário tem ressonância direta na sociedade atual.
Há também um paradoxo silencioso. Esses candidatos são, em grande medida, vítimas de suas próprias qualidades. São previsíveis, institucionais, responsáveis. Em outro momento histórico, isso seria força. No Brasil atual, isso se mostra insuficiente. A sociedade não busca apenas administração eficiente. Busca sentido, direção, reconhecimento.
A expectativa de que o desgaste do bolsonarismo abriria espaço automaticamente se mostra equivocada. O bolsonarismo não é apenas um ciclo de governo encerrado. É uma forma de pertencimento político que se reorganiza e se transfere. A passagem desse capital simbólico para Flávio Bolsonaro evidencia essa continuidade.
Reduzir o problema aos candidatos seria simplificação. Há um movimento mais amplo na sociedade brasileira: polarização afetiva, desconfiança crescente em relação a instituições como o Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional, busca por respostas rápidas para questões complexas, necessidade intensa de pertencimento.
Os governadores operam com a lógica da institucionalidade. Parte relevante da sociedade reage com a lógica da identidade.
É nesse desencontro que se estrutura o impasse.
O país segue em movimento. A memória se reorganiza, os afetos permanecem, as escolhas se estruturam mais pelo reconhecimento do que pela análise. Quem não compreender essa dinâmica continuará falando para si mesmo, acreditando disputar poder enquanto perde relevância.
